1º Introdução. A Quaresma que se aproxima tem de ser tempo de deserto, deserto de coração, para escutar Deus, a sua Palavra, o seu Filho, a voz do Espírito, oensinamento da Igreja, o clamor dos pobres, o grito das multidões sem pão, sem Deus, sem amor. Silêncio e deserto que o Povo eleito viveu durante 40 anos, silêncio e deserto que Jesus viveu durante 40 dias, Silêncio que se torna fecundo pois o coração se abre a Deus, fonte de vida e de santidade. Só o silêncio do deserto orante nos pode transfigurar, converter, nos dará eficácia no apostolado. A oração é, de verdade, a fonte e o dinamismo de todo o apostolado, “a alma de todo o apostolado”.
2º Deserto e conversão. O deserto é lugar e espaço interior que conduz à conversão. Todos precisamos dela. Sem deserto, sem silêncio interior, o stress, a algazarra, o reboliço, as tentações da planície e do barulho do mundo, chegam até nós, nos seduzem ou nos intimidam. Foi no deserto que Jesus foi “sacudido” pelas três grandes tentações que chegam hoje a cada um de nós. A tentação do ter, do aparecer, do poder. Três linhas de força do Maligno, que nos arrastam, nos manobram, nos enrolam, nos fazem tantas vezes cair. Foi assim com Jesus, foi assim com os apóstolos, tem sido assim com a Igreja ao longo dos séculos. Daí a necessidade de conversão. No início da Quaresma lemos o Evangelho das tentações. É referência contínua para o nosso caminho de conversão e libertação.
3º A tentação do ter. Foi esta a primeira tentação de Jesus: ter pão para comer. No horizonte desta tentação estão todas as dos bens consumo. Tentação de ter, ter mais, ter melhor, ter supérfluo, ter sem necessitar, acumular desnecessariamente. O marketing, os anúncios, suscitam o desejo de ter… riquezas de muita ordem…quem tem passa a usar de um estatuto social mais elevado. Quem tem não se abre a Deus, nem faz d’Ele a sua riqueza…tem o coração cheio. Mas Jesus propõe a pobreza evangélica, pelo menos a pobreza espiritual, o sentido de dom e de partilha, de desprendimento, viver sem ganância e sem apegos desordenados. Ser pobre de coração…e de vida despojada…
4º A tentação do aparecer. Foi a tentação de Jesus, a do “pináculo”…tentação de dar nas vistas, de atrair as atenções, de estar da ribalta do palco, de receber elogios e aplausos, de ser vedeta, trabalhar por vaidade, por rivalidade com outros, para sobressair… Mas Jesus propõe a humildade de coração e de vida. Humildade de ser pequenino, de buscar o último lugar, de não querer sobressair, de ser ou jeito d’Ele…
5º A tentação do poder. No caso de Jesus foi a subtileza dos reinos da terra e seus exércitos. Violência, poder, força que domina. No nosso caso o querer ficar por cima numa discussão, o rancor e ódio aos inimigos, as críticas mordazes e ofensivas…o desejo de vencer…até levantamos a voz…Pedro pegou na espada e cortou a orelha do criado…Os filhos de Zebedeu pediram raios do céu para dar cabo dos Samaritanos…Violência de palavras, de olhares, de gestos, de sentimentos altivos e soberbos. Mas Jesus propõe o serviço humilde e despojado… Como Ele que veio para servir e não para ser servido…serviço total, sobretudo aos mais pobres e carenciados, aos que vivem sem pão, sem amor, sem Deus.
Pe. Dário Pedroso



